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José António Saraiva: “A escrita precisa de muita paz”

José António Saraiva gosta mesmo de estar, aqui, no Alentejo. Diz que é onde, realmente, encontra o prazer de escrever.

Alexandre de Barahona (texto e fotografia)

Nos anos 70 começou a escrever para o “Comércio do Funchal”, um jornal redigido em parte na Madeira, mas curiosamente com uma maioria de contributos escritos oriundos de Lisboa. “O Vicente Jorge Silva [futuro diretor do ‘Público’] era o grande animador”. Em seu redor reuniu um notável leque de colaboradores, “desde o meu pai, ao Eduardo Lourenço, ao Fernando da Costa, ao António Mega Ferreira, e tantos outros”, a escreverem num pequeno jornal de uma ilha perdida no atlântico. Provavelmente por isso, “o jornal contava com imensos leitores no Continente. Essa, foi a minha grande escola jornalística!”, explica sobre os seus começos, José António Saraiva, um dos maiores nomes do jornalismo português, antigo diretor do “Expresso” e fundador do semanário “Sol”.

Segue-se a escrita noutros títulos como o “Diário de Lisboa” ou o “República”. “Gostava muito de escrever crítica de cinema, um tema popular na época”, recorda. “Finais dos anos 80, o Vicente [Jorge Silva] vem para Lisboa integrar o ‘Expresso’ e convida-me a colaborar”. Dois anos depois, o Augusto de Carvalho desafia-o para o cargo de subdiretor, “apanhando-me de surpresa, pois nunca tinha trabalhado numa redação. Na época era arquiteto a tempo inteiro, mas pensei que dali a uns anos iria poder dizer aos meus netos que fui da direção do ‘Expresso’”, adivinhando-se vir a ser uma referência do jornalismo português: “…era difícil de renunciar”. Pouco tempo depois, seria o próprio Francisco Pinto Balsemão a convidá-lo para ser o diretor do semanário. “Eu resisti, sugerindo o Pacheco Pereira, o Mega Ferreira ou o António Barreto para o cargo, mas o Balsemão insistiu que tinha de ser eu”. E assim foi.

O outro lado desta moeda é o Alentejo. Não é só alentejano quem por aqui nasceu, ou tem origem familiar. É-o igualmente quem veio e lhe apeteceu prolongar a sua vinda. Quem se rendeu ao nosso clima, à cadência de um sol sem sombras, ao nosso vagar e enrugado fatalismo. Perfazem 30 anos desde que José António Saraiva veio visitar uma pequena quinta, para os lados de Estremoz, e desde então, dali só sai rumo a Lisboa, para as suas obrigações do jornal. Confidencia-me que o Alentejo permite-lhe “ter uma paz, não apenas física, mas também de espírito, que em Lisboa não se consegue ter. Aqui é onde tenho realmente o prazer de sentar-me e escrever”.

Ao fim de 22 anos na direção do “Expresso”, José António Saraiva tem então uma ideia: a de criar um novo semanário para fazer concorrência ao próprio “Expresso”. Abracadabrante plano, expõe a ideia a Francisco Pinto Balsemão, que chocado lhe responde que “isso seria pior que dar um tiro nos pés, seria dar um tiro nos xxx (mais acima, no meio das pernas)”. Ri-se agora, mas o conceito congeminava no seu juízo.

Era “uma necessidade que tinha, a de conceber um jornal mais ligeiro, menos institucional. Queria ter um Fiat, um carrinho mais pequeno, o ‘Expresso’ era um tanque”. Recorda-se divertido: “Chamou-me maluco! Mantive-lhe a lealdade profissional, mas decidi avançar às claras para um novo jornal”. Estávamos em 2005 e, para ver a luz, o “Sol” enfrentou várias tempestades: “Recusavam-nos vender papel, porque o grupo do ‘Expresso’ fazia chantagem junto das gráficas ameaçando retirar todas as suas publicações”. Relembra ter sido o “Diário de Notícias” a emprestar-lhes o papel para imprimirem as primeiras edições.

Regressando com frequência a terras alentejanas, o deslizado das aves no céu imita-lhe a remigração a sua casa. É-lhe natural, coincidindo com os nossos modos, que as referências sejam gastronómicas. Esclarece ter uma seleção de restaurantes preferidos, fazendo-se à estrada para lá ir comer, despreocupado com o tempo que o levará a determinado restaurante. Em Lisboa são as fiadas de carros em passo de caracol, no Alentejo as desfiadas de quilómetros aproximando a planície aos lugares. O tempo é relativo.

Calhando, aprendeu também isso connosco. Aponta à abóbada do teto em madeira no seu monte alentejano, que diz ter sido ele a desenhar, a reconfigurar graças ao dom de arquiteto, e segreda: “Mas eu gosto mesmo, é de estar aqui, sabe?. É o nosso sossego, o tempo que é de cada um e de mais ninguém”. A invisível seiva marcando o coração, pelo silêncio do montado em redor.

“O desenho dá muita paz, mas a escrita, precisa de muita paz”, comenta, murmurando. “A escrita exige muita concentração intelectual, é uma coisa tensa, de muita criatividade. Enquanto o desenho: dá paz. É algo que gostaria de continuar na minha vida, estas duas vertentes da escrita e do desenho”. Adivinhamos onde: no Alentejo.

“O JORNALISMO ESCRITO TORNAR-SE-Á UM LUXO”

Sendo indubitavelmente alguém que elevou a qualidade da imprensa escrita dos últimos 40 anos em Portugal, interessante seria conhecer a sua opinião sobre o jornalismo atual. Afirma que, quando comparado com o passado recente, vemos um panorama totalmente diferente. “Quando entrei para o ‘Expresso’, os jornais marcavam a agenda política. Havia os matutinos, ‘O Século’ e o ‘Diário de Notícias’, o ‘Diário’ e os vespertinos que os ardinas vendiam saltando para dentro dos elétricos, o ‘Diário de Lisboa’, ‘A Capital’, o ‘República’ e o ‘Diário Popular’, que chegou a ser o jornal mais lido na época”.

“Os jornais”, prossegue, “vendiam a sério, portanto, davam dinheiro, e os jornalistas eram uns reizinhos, sentiam-se os protagonistas, desprezando até as administrações”. Continua: “Foram momentos em que tudo se dizia e escrevia na imprensa portuguesa. Hoje o problema é esse, não há dinheiro. Vendem-se pouco jornais e creio que o jornalismo escrito se tornará um luxo. A ‘notícia’ foi invadida por um conjunto avassalador de gente, que não é jornalista, são os comentadores, são as redes sociais”. Aconselhando contra a autocensura: “Não se vende, não há dinheiro, os jornalistas têm medo de ser censurados, de perder o emprego”.

Com José António Saraiva também estamos na presença de um historiador, veia aliás, que emerge do seu pai, do seu avô e do seu célebre tio José Hermano Saraiva. Como será conviver diariamente com essas inúmeras figuras políticas, que fazem do presente, a nossa história de amanhã?

Sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que era uma das várias fontes de informação que Saraiva tinha, nos tempos do “Expresso”, diz que nunca acreditou que viesse a ser Presidente da República. Ele “falava muito, mas também eu desconfiava muito, do que me dizia. Tem uma predileção pela pequena mentira, e nunca acreditei que Marcelo fosse eleito”. Relata um episódio recente: “O meu filho é cônsul-geral de Portugal no Canadá, e ainda há dias me telefonou dizendo que não conseguia acompanhar o ritmo do Presidente Marcelo! Que ele andava sempre agitado nas ruas, que a fugir à segurança entrava em todo o lado, nas lojas, nos cafés, conversava com toda a gente, dizia piadas num alvoroço louco”.

Mas reconhece que Rebelo de Sousa é uma pessoa muito criativa, muito atenta e que “apanha tudo” com extrema rapidez. “No entanto”, aponta, “tem sempre a tentação de pregar umas partidas, de meter veneno, de provocar uma intrigazinha. Tem muitas qualidades, mas alguns defeitos como, na minha opinião, a sua falha em se comportar como uma figura institucional”.

Apesar da crítica, cede: “Nunca o vi como Presidente, mas devo reconhecer que não tem sido mau de todo. Apesar de continuar a achar, que este, não é um cargo da sua natureza”.


Em torno dos deputados da Assembleia da República, considera que o nosso sistema parlamentar “está condenado”. E explica: “Foi criado quando terminou o absolutismo, em 1820, e sem ter grandes mudanças há 200 anos, quando ao invés, a nossa sociedade mudou imenso. O centro do debate político da altura, era o parlamento, quando agora os grandes debates ocorrem fora dali, passam-se nas televisões por exemplo. Ora os deputados, com exceção de dois ou três que realmente trabalham, os restantes de nada servem”. Concordando com uma antiga entrevista, na qual escreveu ter-lhe dito Fernando Nogueira: que “o parlamento, é uma escola do ócio”.

Recolhe-se no Alentejo para prosseguir a escrita, desta feita de um livro sobre o rei Dom Carlos e a rainha Dona Amélia. Ainda assim, sente-se que lhe falta a agitação da republicana corte lisboeta. Os grandes espíritos são irrequietos, e por isso aqui anda ele, neste vai-e-vem entre Lisboa e Estremoz, a que se acostumou.

Ao despedirmo-nos, o apertar de mãos entre nós foi coroado por esta observação: “Estou certo e vou mostrar, que o regicídio foi ordenado por Afonso Costa, mas isto tem sido esquecido, tem sido escondido por influência maçónica”. Se a História lhe está no sangue, então o jornalismo, está-lhe nas guelras.

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